Viver Sóbrio__"Cuidado com a raiva e os ressentimentos"

15__1-3__CUIDADO COM A RAIVA E OS RESSENTIMENTOS

A raiva já foi mencionada neste trabalho, mas certas experiências duras nos convenceram de que é tão importante que merece atenção especial de qualquer pessoa que deseje superar um problema de bebida.

Hostilidade, ressentimento, raiva – qualquer palavra que se use para descrever tal sentimento – parece ter uma ligação íntima com a intoxicação e, possivelmente, uma mais profunda ainda com o alcoolismo.

Por exemplo, alguns cientistas perguntarem a um grande número de alcoólicos por que se embriagavam e verificaram que uma resposta importante era: “Para falar umas verdades a certas pessoas”. Em outras palavras, quando bêbados eles sentiam o poder e a liberdade de exprimir a raiva que não podiam mostrar quando sóbrios.

Alguém já sugeriu que pode haver uma indeterminada e sutil relação bioquímica entre o álcool e o tipo de alterações orgânicas que acompanham a raiva. Um estudo experimental de alcoólicos sugere que os ressentimentos podem gerar na sua corrente sangüínea certo estado desagradável que melhora com uma bebedeira. Um grande psicólogo sugeriu, recentemente, que os bebedores podem gostar da sensação de poder sobre os outros que o efeito do álcool produz.
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Já se fizeram relatórios de fatos sobre a íntima correlação entre a bebida, as agressões e os homicídios. Parece que uma alta proporção destas ocorrências em alguns paises acontece quando ou a vítima ou o autor (ou ambos) está sob efeito do álcool. Estupros, discussões domésticas que levam à separação, maus tratos a crianças, assalto a mão armada são freqüentemente também colocados na conta do excesso da bebida.

Mesmo os que não tivemos experiências desses comportamentos podemos facilmente compreender a fúria selvagem que podia levar certas pessoas a pensar em tamanha violência quando estão tensas demais. Desse modo, reconhecemos um perigo potencial na raiva.

Parece haver pouca dúvida de que ela é um estado natural que ocorre no animal humano, vez ou outra. Assim como o medo pode possuir certo valor de sobrevivência para todos os membros da espécie homo sapiens. A raiva de certas abstrações, como a pobreza, a fome, a doença e a injustiça, sem dúvida, provocou mudanças para melhor em várias culturas.

Mas também não se pode negar que as lesões corporais e as ofensas verbais cometidas sob raiva excessiva são deploráveis e realmente causam dano à sociedade, em geral, a aos indivíduos em particular. Por isso, muitas religiões e filosofias insistem que devemos nos livrar da ira a fim de alcançarmos uma vida mais feliz.

Todavia, grande número de pessoas estão certas de que reprimir a ira é muito mau para a saúde emocional, pois devemos extravasar nossa hostilidade de certo modo. Do contrário, ela “envenenará” o nosso íntimo, levando-nos a profunda depressão.
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A raiva, em todos seus aspectos, é um problema humano universal. Mas constitui uma ameaça especial para os alcoólicos: nossa própria raiva pode matar-nos. Os alcoólicos recuperados concordam quase unanimemente que a hostilidade, os rancores, os ressentimentos muitas vezes nos fazem ter vontade de beber, de modo que precisamos estar vigilantes contra tais sentimentos. Encontramos maneiras muito mais agradáveis de lidar com eles do que beber.



15__3-3__"CUIDADO COM A RAIVA E OS RESSENTIMENTOS"
Naturalmente, às vezes, estamos ressentidos com circunstâncias de nossa vida que podem e devem ser mudadas. Talvez devêssemos mudar para um emprego melhor, desquitar-nos ou levar a família para um bairro mais agradável. Nesse caso, tal decisão deve ser tomada cuidadosamente, não com raiva ou precipitação. Por isso, é melhor acalmar-nos primeiro. Depois, talvez possamos refletir calma e construtivamente para descobrir se nosso ressentimento se dirige a alguma coisa que podemos mudar. Para reconferir isso, consulte o capítulo da Oração da Serenidade.

Às vezes, não é com um antigo ressentimento que temos de lidar, mas com ira súbita e devastadora. O plano das 24 horas e “Primeiro as Coisas Primeiras” já ajudaram muitos de nós a enfrentar essa espécie de raiva. Não podíamos imaginar como esses lemas poderiam ajudar tanto. Mas tentamos de fato – e os resultados foram surpreendentes.

Outro remédio eficaz para a raiva é pensar “como se”. Imaginamos como uma pessoa amadurecida, realmente bem equilibrada, trataria um ressentimento igual ao nosso e, depois, agimos como se fôssemos essa pessoa. Faça algumas tentativas. Dá certo também.

Para muitos de nós funciona, inclusive, a orientação especializada de um bom conselheiro, de um psiquiatra, de um médico ou de um ministro religioso.

Podemos, ainda, encontrar uma saída na atividade física não-prejudicial. Os exercícios já citados, a respiração profunda, um bom banho quente de banheira e (na intimidade) dar murros numa cadeira ou almofada e gritar já aliviaram a raiva de muitas pessoas.

Simplesmente reprimir, atenuar ou conter a raiva raramente parece aconselhável. Ao contrário, tentamos aprender a não agir contra ela, mas a respeito dela. Se não o fazemos, aumentamos enormemente nossas probabilidades de beber.

Como leigos que contam unicamente com a própria experiência, nós, alcoólicos recuperados, não possuímos conhecimento experimental nem teorias científicas sobre esses assuntos. Mas poucas pessoas que já passaram por uma ressaca poderiam esquecer como elas nos fazem parecer tão irracionalmente irritáveis. Às vezes, descarregamos toda a irritação nos membros da família, nos colegas de trabalho, nos amigos ou estranhos que não mereciam esse tratamento.

Essa tendência pode acompanhar-nos por uns tempos depois de termos começado a ficar sóbrios – como as nuvenzinhas de fumaça numa sala fechada de bar, a lembrar-nos do tempo em que bebíamos – até fazermos uma boa limpeza de casa em nossa mente.