DP - Voltar a amar

Voltar a amar

O verdadeiro amor está longe da luxúria 

 
          Certo dia, ainda adolescente, fui levar uns papéis próximo ao internato do colégio no qual eu estudava e, passando pelos banheiros, fui dar um "oi" para minhas colegas internas que estavam tomando banho. Qual não foi o meu espanto quando vi que todas estavam tomando banho com suas roupas íntimas e com combinação. Para quem não sabe, combinação era uma peça do vestuário feminino usada sob o vestido para esconder uma possível transparência do mesmo; existia ainda a anágua e o saiote, tudo para "camuflar" as formas femininas. Perguntei então às colegas o que significava aquilo,porque não estavam nuas? E elas me responderam: "Esqueceu-se das nossas aulas de religião? O controle aqui dentro é grande; a nudez é pecado; olhar nosso próprio corpo nos leva à luxúria". De fato foi isso mesmo que eu aprendi: não devo olhar para o meu corpo nu; é luxúria. Fazer carinho é luxuria, beijar é luxúria, ler romances é luxúria. Minha personalidade formou-se dentro dessa filosofia moralista de uma incompreensão total, de uma rigidez  à tudo que diz respeito à sexualidade.
          Por que isolar o sexo do espírito? Todo o valor do ser humano era colocado no espírito e a sexualidade humana era tratada como luxúria, não como uma realidade participante da riqueza do espírito , mas apenas uma realidade carnal relegada ao último plano.
          Aí é que começa o meu drama, pois, quando recusamos dar importância à questão sexual é que ela corre o risco de se tornar importante demais. De um lado a educação acadêmica repudiando o sexo como sendo um dos sete pecados capitais: a luxúria; do outro lado, meus pais que escondiam tudo. Por que eu não podia ver o corpo da minha mãe? O que ela escondia tanto de mim? Meu pai, nem se fala... tudo era escondido, cochichado, à chaves... estariam eles em atos de luxúria?
          Minha curiosidade crescia. Era natural, pois eu me sentia criatura de Deus perfeita, pura, bonita e ao mesmo tempo espantada com meus sentimentos: seria eu depravada, libidinosa, luxuriosa?
          A virgindade, então, era exaltada como a expressão da mais alta qualidade espiritual; uma falsa moral de máscara grosseira, espíritos pornográficos, corações putrefatos que ignoravam o verdadeiro amor.
          Eu só queria ser normal e no entanto havia dentro de mim o peso da carne humana e a constante agressão do corpo contra o éspírito, do irracional contra o racional, do determinismo contra a liberdade.
          Foi carregando essa bagagem de dúvidas e incertezas que me entreguei ao homem que amava.
          Quantos traumas me causou essa educação moralista!
          Como separar a luxúria do colégio, do verdadeiro amor humano que, para mim, era carne e espírito, corpo e alma que se encontram e vivem o amor natural como dádiva divina?
          Nesse contexto de completa ignorância do certo ou do errado, em quem acreditar, que, para liberação do corpo e do espírito, vieram
os primeiros goles!
          "Beba, é bom para relaxar!" E realmente eu me relaxava e me entregava à volúpia, à lascívia, à luxuria.
          Os goles foram aumentando e os prazeres também.
          Nos dias seguintes, a ressaca era física e moral: o tabu familiar, a moral do colégio... o peso da minha consciência, mas eu continuava porque o sexo associado à bebida me dava muito prazer, até o dia em que ouvi:
          "Beba, nada como uma mulher bêbada na cama!"
          Não era eu! Não era eu quem estava fazendo tudo aquilo!
          Era, sim, uma vítima da bebida que satisfazia o companheiro com atos de
luxúria.
          Quando veio a separação, passei por um período de adaptação à nova situação e só pela graça de um Poder Superior não me entreguei à prostituição. Muito pelo contrário, aprendi a sublimar toda a minha energia, todos os meus sentimentos físicos e espirituais, conseguindo um equilíbrio emocional. Estava consciente da minha condição existencial corporal, sensível, sexual e simultaneamente, em todos os instantes, espiritual.
          Faltava então abandonar a bebida, essa companheira que estimulava meu físico à luxúria.
          Em A.A. alcancei essa graça. Abandonei a bebida. Entreguei-me com garra à programação, aos Três Legados e, num "piscar de olhos", adquiri também qualidade de vida.
          Hoje sei que não há luxúria quando a sexualidade é acima de tudo o sinal do amor. A sexualidade não é feita para o prazer, mas para o dom; se a atividade sexual é sinal de amor, e este é o dom por essência, assim também a união sexual será por sua vez, um dom em lugar  de uma mesquinha tomada de posse. Camus diz: "O ato do amor... é uma confissão".
          Com efeito, o amor verdadeiro implica uma entrega sem necessidade de beber, sem atos de volúpia ou luxúria... tudo flui... tudo é natural, porque o amor exige a união interior primeiro, a exterior depois.
          Quando pratiquei meu Terceiro Passo pela primeira vez, entreguei aos cuidados de Deus minha vida, minha alma e meu corpo também, certa de que "nunca mais"  conseguiria, sóbria, amar alguém. O trauma da "mulher bêbada na cama", carrego até hoje.
          Aos poucos fui adquirindo minha sanidade e tomando consciência de que não só posso como devo voltar a amar. Abrir meu coração e entregar-me  ao ser amado para uma sexualidade sadia resultante de uma realidade  espiritual: a "corporificação" do amor; dois seres que se aceitam em sua integridade existencial, que unem  suas fraquezas e suas forças, seus belos e seus feios, suas alegrias e seus sofrimentos, seus corpos e suas almas, para, por intermédio de seu amor, entrarem em comunhão com Deus.

REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 79-SET/OUT 2002